Por Clara Del Amore

Éééééé do Brasil! A série 3% tem aquele tipo de narrativa que usa da fantasia para falar de problemas muito reais. Na história, a maioria das pessoas vive uma região chamada Continente, um lugar miserável e totalmente devastado.

No entanto, existe uma (única) esperança para mudar de vida: passar no Processo e ter chance de conquistar um lugar no Maralto. Lá, a vida é perfeita, e as dificuldades enfrentadas no Continente não passam de uma memória esquecida. O problema? Apenas 3% dos candidatos conseguem chegar lá.

Para quem já é fã e, como eu, devorou a terceira temporada, viu que o desespero e a brutalidade vistos no início da história deram lugar a um sentimento de acolhimento e esperança. A criação da Concha, uma alternativa ao Maralto, tem tudo para dar certo. Ou melhor, quase tudo.

De um jeito ou de outro, o fato é que 3% toca em muitos assuntos relevantes na sociedade brasileira e que podem aparecer no tema da sua redação do vestibular. E se isso acontecer, este post vai te ensinar a usar trechos da série como repertório. Tudo muito bem articulado, para jogar sua nota lá em cima.

🚨 Aviso importantíssimo: o que mais tem aqui é spoiler. Desculpa, não tem outro jeito! 🚨

Tema de redação nº 1: A cultura da meritocracia na sociedade brasileira

Como mencionei, a terceira temporada da série traz uma alternativa quase perfeita para os moradores do Continente: a Concha, criada pela Michele. E eu digo quase perfeita porque, no fim, a criadora é forçada a elaborar um processo para quem quer entrar na Concha também. Assim como no Processo original, as provas organizadas pela Michele buscam definir quem merece permanecer na Concha. Os que não passam devem ir embora imediatamente, querendo ou não querendo.

temas de redação 3%

Na vida real, a lógica da meritocracia é a seguinte: todas as pessoas têm as mesmas chances de ascensão econômica, social e política; vence quem se esforçar mais ou quem tiver mais qualidades, como inteligência e perseverança. Ou seja, chega ao topo quem tiver mais méritos, e não quem tiver mais ajuda da família ou do Estado, por exemplo.

É uma espécie de filosofia que ficou muito popular depois da Revolução Francesa e ficou muito popular em países como os Estados Unidos, que ainda cultuam bastante a imagem do “self-made man” (o cara que se ergueu do nada, tradução nossa). Já o termo meritocracia foi cunhado sociólogo britânico Michael Young na obra “The Rise of the Meritocracy”, de 1958.

Porém, nem mesmo na série as coisas funcionam dessa maneira. No Continente, cada pessoa tem sua experiência de vida individual: há quem participava da Causa, que buscava destruir o Processo; quem tinha um papel nas atividades religiosas e quem tem um sobrenome de peso. Ou seja, ao entrar no Processo, cada pessoa começa a luta de um patamar diferente.

Enquanto isso, no Brasil…

O Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) da Organização das Nações Unidas (ONU), referente a 2018, mostrou que os 1% mais rico da população brasileira detém 28% da renda do país. Achou pouco? Tem mais: os 10% mais ricos detêm quase metade de toda a renda do país – 41,9%. Enquanto isso, em 2016, praticamente um quarto da população estava abaixo da linha da pobreza – ou seja, quase 50 milhões vivendo com uma renda que equivalia a R$ 387,00 por mês. Isso sem mencionar outras diferenças como raça, orientação sexual, núcleo familiar…

Então, você acha mesmo que todas as pessoas do nosso país possuem exatamente as mesmas oportunidades para conquistar um bom emprego, um diploma na faculdade ou mesmo para viver uma vida relativamente confortável e segura? 

Tema de redação nº 2: A importância da resiliência em tempos de crise

Na série, Michele se vê forçada a criar um processo para a entrada na Concha ao perceber que os alimentos e a água disponível não durariam por muito tempo. Com isso, quase toda a população do local acaba tendo que ser eliminada – o que deixa a personagem destruída.

Ainda assim, ela tenta permanecer como uma líder justa, acolhendo um ferido que havia sido eliminado e não dando segundas chances àqueles que não passaram no teste. 

Ser capaz de se adaptar em situações difíceis e de muita pressão é uma habilidade muito valiosa, visto que foi por meio da adaptação que descobrimos ferramentas e elementos essenciais à nossa sobrevivência, como o fogo.

Mesmo sofrendo com os impactos negativos, uma pessoa resiliente consegue se recuperar, aproveitando oportunidades e aprendizados que surgem com as dificuldades.

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Tema de redação nº 3: O aumento da desigualdade de renda e seus desafios

Se só 3% dos que passam pelo Processo conquistam um lugar em Maralto, 97% dos candidatos reprovados retornam ao Continente. Lá, é impossível crescer. Com a escassez de recursos, a miséria é soberana e a violência domina.

Por outro lado, os 3% restantes passam a viver no Maralto, uma comunidade rica, tecnológica, abundante. Lá, as pessoas não se preocupam com o que pode acontecer no dia seguinte. A fome e a falta de segurança não são mais problemas.

Ou seja, em 3%, uma vez passado o Processo, quem é pobre só tende a ficar mais pobre, enquanto quem é rico certamente não vai mudar de condição.

temas de redação 3%
Todo mundo pode subir de vida, basta querer. Será mesmo?

Na vida real as coisas são diferentes, mas nem tanto. Um relatório supercompleto da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) avaliou a trajetória de famílias brasileiras ao longo de várias gerações. A estimativa é que, em média, os 10% mais pobres levam nove gerações para mudar de classe social. 

E adivinha qual é o principal entrave para a mobilidade social? A qualidade da educação. Sobre o Brasil, o estudo diz:

“Apesar de algumas melhorias (relacionadas ao aumento do gasto e acesso à educação primária e secundária gratuita), as conquistas e a qualidade da educação permanecem baixas na comparação internacional.”

Fica claro, então, que investir em educação é uma saída clara para melhorar os índices de mobilidade social no Brasil e, por consequência, para abrandar aquela desigualdade que eu citei lá no tema 1.

Então quer dizer que eu posso usar uma série da Netflix na minha redação do vestibular?

Eu te garanto: pode, demais! Seja para o ENEM ou para outros vestibulares, um texto dissertativo-argumentativo tem muito a ganhar quando o vestibulando escreve com segurança. Nesse sentido, tudo bem se você quiser decorar estatísticas complexas e frases de filósofos, mas nós do Salto estamos aqui para te convencer de que isso não é necessário.

Para jogar sua nota lá em cima com um bom repertório, o que vale é a forma como você relaciona o que você tem de conhecimento com o tema da redação. E, para isso, o melhor mesmo é apostar em algo que você conhece bem. Então, se você é fã de 3%, um trecho da série bem articulado na sua argumentação certamente vai valer mais que uma frase de Nietzche fora de contexto.

Aliás, aqui no nosso blog, tem repertório pra todos os gostos. Gosta de “dramédia” adolescente? Então, que tal dar uma olhada no post sobre três temas de redação na série Atyplical? Ah, você prefere sitcom? Sem problemas, tá na mão o post sobre temas de redação em One Day at a Time. Mas se você nem é muito de série e gosta mesmo é de games… acredite, nós também temos conteúdo para você: três temas de redação em The Last of Us 2.

No mais, nosso Instagram sempre tem esse tipo de conteúdo em primeiríssima mão. E nosso canal do Youtube tem videoaulas SENSACIONAIS, ensinando a pensar sobre temas de redação e articular repertórios, assim como eu fiz aqui.

No mais, muito obrigada pela visita e até a próxima!

Clara Del Amore
Redatora, maratonista de
séries e mascote do Salto