Por Clara Del Amore

Foi em um fim de semana meio monótono que eu a avistei pela primeira vez nas recomendações do catálogo da Netflix. Me lembro que um amigo tinha comentado sobre ela e eu decidi dar uma chance.

Sabe quando a narrativa é leve, mas ao mesmo tempo os personagens são complexos? E quando os episódios são marcantes, mas curtinhos? Para mim, essa é a receita da madrugada em claro. Maratonei Atypical inteirinha em um único sábado. Na época, eu ainda não escrevia para O Salto e nem pensei que a série que retrata a vida de Sam Gardner, um adolescente no espectro do autismo, também daria um senhor repertório para a redação do ENEM e outros vestibulares.

A história chegou em sua terceira temporada em 2019, e fala sobre a luta do Sam para viver sua vida com mais independência e autonomia, ao mesmo tempo que enfrenta dilemas da vida de qualquer adolescente. Mas aqui não é lugar de fazer crítica cinematográfica. Então, chega de elogios e partiu falar de tema de redação! 

🚨 Aviso importantíssimo: o que mais tem aqui é spoiler. Desculpa, não tem outro jeito! 🚨

Tema de redação nº 1: Desafios da inclusão social de pessoas com autismo no Brasil 

Ser diagnosticado com TEA (Transtorno do Espectro Autista) não limita os desejos de Sam, como o de ter uma namorada, iniciar a sua vida sexual, entrar em uma faculdade. Assim, a série mostra a importância da inclusão social, visto que todos apresentam anseios e expectativas sobre o seu futuro.

O personagem não busca ser exatamente igual aos outros, mas sim se desenvolver dentro de seus próprios parâmetros e ter as mesmas oportunidades que os outros. No entanto, ele é vítima de bullying e discriminação em sua escola e sofre até mesmo rejeição de um casal de amigos de seus pais, que se afastam dos Gardner por terem medo de Sam machucar o seu filho. 

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Sam só quer ser livre, como demonstra aqui seu amigo e pior conselheiro do mundo, Zahid.

Enquanto isso, no Brasil…

De acordo com dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2017, o autismo afeta 1 a cada 160 crianças no mundo. Mas a desinformação acerca do assunto, como sempre, contribui para a exclusão, dificultando a vida dessas pessoas na sociedade. Nem todo mundo compreende quais as características de uma pessoa autista, muito menos que elas podem ser completamente diferentes entre si.

Ninguém é obrigado a nascer sabendo, mas todo mundo pode buscar se informar. Então, se você também não entende muito do que se trata o espectro, recomendamos começar por este artigo no blog do Ministério da Saúde. Spoiler: asperger e outros termos cabeludos já caíram em desuso.

Além disso, segundo a associação Autismo e Realidade, cerca de 80% das pessoas com TEA estão fora do mercado de trabalho e, no Brasil, esse número pode chegar a 1,4 milhão. Para conscientizar a sociedade sobre o tema, já existe o Dia Nacional da Conscientização do Autismo, que é o dia dois de abril. Encontramos, também, o programa Catalisa, da empresa Zup, uma espécie de trainee exclusivo para pessoas no espectro que querem trabalhar com programação.

Tema de redação nº 2: Consequências sociais da superproteção parental na adolescência

No início da série, Elsa, a mãe de Sam, é superprotetora e não consegue aceitar a ideia de que seu filho está se empenhando para conquistar a sua independência. Então, quando o Sam vai necessitando cada vez menos da ajuda dela, ela mesma vai ganhando dificuldade em retomar a própria vida.

Na vida real, esse tipo de comportamento pode influenciar negativamente o futuro dos filhos. Um estudo elaborado pela Universidade de Minnesota e publicado na revista Developmental Psychology em 2018 mostra que as atitudes dos pais “helicóptero”, aqueles que “rodeiam” as suas crias o tempo todo, tornam crianças e adolescentes menos capazes de enfrentar desafios exigidos pelas etapas do crescimento.

Isso vale para coisas como fazer amigos e ter um bom rendimento escolar. Além disso, eles podem ter dificuldades em lidar com suas emoções e se tornarem gradualmente mais dependentes, inclusive emocionalmente, de seus genitores.

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Felizmente, o Sam até que se saiu bem, apesar da preocupação da Elsa.

Tema de redação nº 3: Neurodiversidade e a importância de reconhecer e respeitar as diferenças 

Atypical mostra que quem está no espectro não deve ser visto como portador de alguma doença, mas sim como um cidadão que apresenta características distintas em determinadas situações. Até porque, oficialmente, a TEA não é considerada uma doença e, por isso mesmo, não existe cura ou exame laboratorial que comprove a condição.

Apesar disso, esse entendimento não é o mais comum entre as pessoas. Ainda pior, muitos serviços não são tão preparados assim para lidarem com indivíduos que estão dentro do espectro.

Por exemplo, em uma das cenas, Sam decide dormir na casa de seu amigo Zahid, mas se sente sobrecarregado com a experiência e vai embora tarde da noite sem avisá-lo, sendo parado por um policial, que suspeitava que ele estava sob efeito de drogas. Sam não consegue se explicar para o oficial, justamente por estar enfrentando uma crise e mesmo com as explicações de Zahid, que o alcançou, os dois são presos.

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Dá raiva mesmo saber que situações como essa acontecem por aí.

Enquanto isso, no Brasil…

Você sabia que a lei de atendimento prioritário, aquela que determina que os estabelecimentos devem atender primeiro idosos, gestante e pessoas com deficiência, também enquadra as pessoas no espectro? Isso aconteceu graças a uma outra lei de 2012, conhecida como Lei Berenice Piana

Como uma das principais características gerais do autismo é a intolerância a frustrações, pode ser uma verdadeira tortura para uma criança autista, por exemplo, passar vários minutos em uma fila em um shopping,. Ainda assim, nem sempre quem atende o público está, sequer, informado sobre essa determinação

Uma outra lei, mais recente, também permitiu a criação da Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Ciptea), que pode ajudar a evitar situações péssimas como a que aconteceu com o Sam.

E como eu posso usar uma série na minha redação de vestibular?

Aqui no Salto, a gente acredita que o melhor repertório é o aquele que você gosta de verdade. Então, não é necessário ficar decorando frases de filósofos cabeçudos (a não ser que você goste, aí pode). Também não precisa ficar maratonando documentários pesados se você detesta esse gênero.

O que o texto dissertativo-argumentativo quer é ver sua habilidade de articular bem informações válidas em uma argumentação bem elaborada. Portanto, se você ama animações da Disney, pode ter certeza que um Rei Leão bem colocado vai valer muito mais que um Foucault sem contexto. O que importa mesmo é que você saiba relacionar bem o seu repertório com a ideia que você quer exemplificar ou introduzir – e isso fica bem mais fácil quando você tem mais intimidade com a obra.

Então, se você gosta de séries sci-fi em futuros distópicos, talvez vá gostar de saber como usar Westworld em três temas de redação. Agora, se sua praia é jogos, talvez vá curtir o conteúdo sobre temas de redação em The Last of Us – Part II. E em todo caso, seguindo a gente no Instagram você vai ver sempre em primeiríssima mão todas as nossas análises com foco no vestibular. Prometo que você vai gostar do conteúdo!

Clara Del Amore
Redatora, maratonista de
séries e mascote do Salto