Depois de anos de espera, uma porção de trechos vazados e dois adiamentos, a continuação do jogo The Last of Us finalmente saiu! No entanto, como não poderia deixar de ser, teve gente que amou o resultado e gente que odiou profundamente. O fiasco das avaliações dos usuários no Metacritic está aí para provar: o jogo chegou à humilhante nota de 3,4/10 alguns dias depois do lançamento. Enquanto uns descem a lenha em furos de roteiro e na construção dos personagens, outros se derretem na jogabilidade e na trilha sonora. A crítica especializada, principalmente: não faltaram elogios à obra.

Mas isso está longe de ser a única polêmica relacionada ao TLOU 2. Afinal, sempre foi parte da proposta tocar em temas profundos e filosóficos ao longo da história. E você sabe como é o esquema aqui no Salto, né? Nossos olhinhos são treinados para encontrar temas de redação em tudo nessa vida. Portanto, trouxemos não só uma, mas três polêmicas embutidas na narrativa do jogo que podem aparecer na sua proposta de redação no vestibular.

Vem comigo!

Tema de redação nº 1: Consequências da transfobia na sociedade brasileira.

Lev, um dos personagens, é obrigado a abandonar sua vida no culto religioso dos Serafitas por questionar e não se adequar aos padrões de gênero. Então, quando ele raspa a cabeça (algo que só os homens de sua comunidade poderiam fazer) e passa a se identificar como um indivíduo do sexo masculino, o povo perde completamente as estribeiras. Daí em diante, passam a considerar ele uma abominação e só aceitam chamá-lo pelo nome que lhe foi dado no nascimento – que era um nome feminino.

O Lev, pra quem não conhece.

Na vida real, além de enfrentarem uma discriminação pesada, pessoas trans fazem parte das minorias mais afetadas pela violência física no nosso país. Sabe aquela história de que o Brasil é o que mais mata trans e travestis no mundo inteiro? Então… não é um exagero. Para você ter uma ideia, de acordo com o boletim nº 03/2020 da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o país registrou 89 assassinatos de pessoas trans no primeiro semestre de 2020, com aumento de 39% em relação ao mesmo período em 2019.

Quanto à questão do nome social, a regra é clara: está determinado no Decreto nº 8.727, de 28 de abril de 2016:

“Art. 2º Os órgãos e as entidades da administração pública federal direta, autárquica e fundacional, em seus atos e procedimentos, deverão adotar o nome social da pessoa travesti ou transexual, de acordo com seu requerimento e com o disposto neste Decreto.”

E ainda:

“Art. 6º A pessoa travesti ou transexual poderá requerer, a qualquer tempo, a inclusão de seu nome social em documentos oficiais e nos registros dos sistemas de informação, de cadastros, de programas, de serviços, de fichas, de formulários, de prontuários e congêneres dos órgãos e das entidades da administração pública federal direta, autárquica e fundacional.”

É superimportante que essa regra exista, isso é algo indiscutível. Mas, na prática, pode ser bem complicado o caminho até uma pessoa trans ou travesti conseguir ter seu nome social respeitados nos lugares que frequenta. O mesmo vale para outras expressões de transfobia – como chamar alguém de anomalia, por exemplo. De fato, o Supremo Tribunal Federal decidiu por incluir homofobia e transfobia na lei que criminaliza o racismo.

Há quem diga que essa “gambiarra” na lei não é o ideal. Afinal, racismo e violência de gênero tem mecanismos próprios, não dá pra comparar as duas coisas. Ainda assim, com a decisão, o Brasil se tornou o 43º país do mundo a considerar essa violência um crime – embora, aparentemente, os efeitos desse avanço ainda não tenham começado a aparecer.

Tema de redação nº 2: Como combater o crescimento do discurso de ódio no ciberespaço?

Neil Druckmann, diretor do jogo, havia previsto que alguns dos fãs da primeira parte não gostariam da segunda, mas não esperava que sua equipe fosse vítima de uma campanha de ódio na internet. A obra sofreu uma ação chamada de “review bomb”, na qual internautas se uniram para divulgar avaliações negativas em massa, alterando a nota geral dela em sites especializados (como o Metacritic, que eu citei na introdução).

E não parou por aí: aqueles que se envolveram em sua produção receberam xingamentos e ameaças de morte. Por exemplo, a dubladora Laura Bailey, que emprestou a sua voz e forneceu a captura de movimentos à personagem Abby, recebeu mensagens hostis que ameaçavam a sua integridade física e até mesmo a de seu filho.

Traduzindo, porque ninguém tem obrigação de saber inglês, Laura diz: “Cara, eu tento postar só coisa positiva aqui… mas às vezes as coisas ficam muito pesadas. Eu tampei algumas palavras porque, né, spoilers. Nota: Obrigada a todos que me mandaram mensagens positivas pra equilibrar isso daí. Significa mais do que eu consigo expressar.” E aí os comentários do print dizem: “Eu vou te matar porque você ******* em the last of us part 2”; “Eu vou te encontrar onde quer que você more e te trucidar pelo que você fez com ****, marque minhas palavras” e por aí vai.

Por mais que um personagem fictício provoque raiva ou que não gostemos de uma determinada obra, não faz sentido hostilizar a equipe que faz o trabalho acontecer, principalmente com essa violência totalmente desproporcional.

No Brasil, ainda não existe uma legislação específica para esse tipo de violência. Porém, na era do cancelamento, não dá pra negar que o tema vai se tornando cada vez mais urgente. Hoje, esse tipo de intimidação sistemática em ambiente virtual é considerada cyberbullying e tem consequências previstas na lei que trata do bullying.

No mundo das iniciativas privadas, em que tudo normalmente corre mais rápido, já é possível encontrar algumas campanhas sobre o tema. Por exemplo, existe uma parceria entre Instagram, Unicef e Safernet – procure pela #édaminhaconta

Tema de redação nº 3: Benefícios da acessibilidade em produtos midiáticos.

Esse print eu tirei do Playstation Blog.

A narrativa de TLOU2 é cheia de representantes da comunidade LGBTQIA+, mas esse não é o único motivo pelo qual a desenvolvedora Naughty Dog o considera o jogo mais inclusivo lançado por ela até hoje. Isso porque foram desenvolvidas mais de 60 configurações que facilitam a imersão de jogadores que possuem dificuldades motoras e de audição e que fornecem, pela primeira vez, opções para pessoas com baixa visão ou que não enxergam.

Por exemplo, é possível contar com um auxílio de mira e movimentação. Além disso, o controle é totalmente personalizável. Dessa forma, pessoas que possuem alguma deficiência também podem ter uma experiência de jogabilidade satisfatória. Por isso, dá pra dizer que o game foi bem além do esperado, visto que é difícil encontrar outros com as mesmas condições de acessibilidade.

Enquanto isso, no Brasil, ainda não existem guias oficiais de recomendações oficiais para a inclusão e acessibilidade nos games. E o motivo disso não é estatística: o Censo de 2010 mostra que 24% da população apresenta algum grau de deficiência.

E como eu posso usar um jogo na minha redação de vestibular?

Aqui no Salto, a gente acredita que o melhor repertório é aquele que você gosta de verdade. Então, não é necessário ficar decorando frases de filósofos cabeçudos (a não ser que você goste, aí pode). Também não precisa ficar maratonando documentários pesados se você detesta esse gênero.

O que o texto dissertativo-argumentativo quer é ver sua habilidade de articular bem informações válidas em uma argumentação bem elaborada. Portanto, se você ama animações da Disney, pode ter certeza que um “O Rei Leão” bem colocado vai valer muito mais que um Foucault sem contexto.

O que importa mesmo é que você saiba relacionar bem o seu repertório com a ideia que quer exemplificar ou introduzir – e isso fica bem mais fácil quando você tem mais intimidade com a obra.

Então, se você gosta de séries de sci-fi em futuros distópicos, talvez vá curtir o conteúdo sobre como usar Westworld em três temas de redação. E em todo caso, seguindo a gente no Instagram você vai ver sempre em primeiríssima mão todas as nossas análises de série com foco no vestibular. Confia em mim, você vai gostar!

Clara Del Amore
Redatora, maratonista de
séries e mascote do Salto