Por Clara Del Amore

Vasculhando a world wide web, a gente encontra todo tipo de crítica sobre Dear White People (Cara Gente Branca, em PT-BR). Há quem aplauda a iniciativa da série, baseada em um filme homônimo, de mostrar como o racismo segue firme e forte em instituições como universidades e também em pequenos detalhes da rotina de pessoas negras. Por outro lado, há quem diga que a série promove o ódio contra os brancos e estimula o tão discutido “racismo reverso”.

Entre uma opinião e outra, parafraseio uma grande amiga minha: Dear White People é a série perfeita para as pessoas brancas que se esforçam para desconstruir o racismo e precisam de uma forcinha para exercitar a autocrítica. Dá para sacar pelo título, né? 

Mas não é só isso. Se Dear White People veio parar neste blog, é porque aborda assuntos que renderiam um bom tema de redação do ENEM (e de outros vestibulares também). E se isso acontecer, nossa missão é te ensinar a usar a série como repertório.

Então, vem comigo!

🚨 Aviso importantíssimo: o que mais tem aqui é spoiler. Desculpa, não tem outro jeito! 🚨

Tema de redação nº 1: Identidade racial e colorismo no Brasil 

O colorismo (já falamos sobre ele neste post sobre One day at a time) é muito presente na série, principalmente na relação entre Sam e Coco, ambas pretas. No entanto, a primeira tem pele mais clara e olhos verdes, enquanto a segunda tem pele mais pigmentada e olhos escuros. Coco afirma que Sam tem o “privilégio de pele clara”, já que se parece mais com uma pessoa branca do que ela. A série dá a entender que Sam sofreu menos racismo, enquanto a Coco se sente inferior mesmo dentro da comunidade negra da faculdade. Isso sem falar na discriminação no seu círculo de amizades branco.

temas de redação em dear white people

No Brasil, palavras como “mulato” e “moreno” são utilizadas para definir pessoas pretas de pele mais clara, sendo consideradas termos que negam a negritude de um indivíduo. E como a nossa história como sociedade é marcada pelo racismo, chamar alguém de negro se tornou ofensivo, pejorativo. 

Nesse sentido, é algo bem interessante observar como evolui a proporção da população que se autodeclara parda e preta. Desde 2015, as pessoas pardas passaram a representar a maior parte da população, sendo 96,7 milhões em 2018, de acordo com o IBGE. Ao mesmo tempo, houve um aumento de cerca de 32% de pessoas que se autodeclaram pretas, 4,7 milhões a mais do que em 2012. 

Tema de redação nº 2: A apropriação cultural como mecanismo de opressão

Uma das grandes polêmicas que guiam a narrativa da série é uma festa organizada por um grupo de alunos brancos com o tema “Blackface”. Funcionava assim: todos os participantes da comemoração pintaram a pele e usaram perucas crespas para prestar uma “homenagem” às pessoas negras. Algumas, inclusive, resolveram se fantasiar de artistas a Nicki Minaj, abusando de exageros e estereótipos.

coco dear white people
Pois é.

A sociedade contribui o tempo todo para a manutenção do racismo e para que características associadas à cultura preta sejam relacionadas a coisas ruins ou demonizadas. Para ilustrar, vou colocar aqui um trecho de um artigo da filósofa Djamila Ribeiro. 

“Falar sobre apropriação cultural significa apontar uma questão que envolve um apagamento de quem sempre foi inferiorizado e vê sua cultura ganhando proporções maiores, mas com outro protagonista”.

Isso quer dizer que existe um grupo dominante, coletiva e estruturalmente, que discrimina os que estão em desvantagem social. Mas que, ao mesmo tempo, se apossa de seus produtos e tradições culturais, ignorando a história por trás deles, mesmo quando a intenção é prestar uma homenagem.

E isso não acontece somente com os pretos: vemos constantemente brancos fantasiados no Carnaval, muitas vezes de forma bem sexualizada ou estereotipada, de indígenas, ciganos, árabes… Mas eles não enfrentam a mesma opressão diária que essas minorias. Se você ainda tem dúvidas sobre isso, imagine uma pessoa branca de dreads e uma pessoa preta com o mesmo penteado. Enquanto a primeira é vista como “descolada”, a segunda é considerada “suja”.

Tema de redação nº 3: Dificuldades e desafios do relacionamento inter-racial

Sam, umas das militantes mais ativas do movimento negro da faculdade, namora Gabe, um cara branco. Ao descobrirem isso, seus colegas também militantes transformam o relacionamento de Sam em um alvo de chacotas e pressões. Afinal, como ela, que milita tanto sobre o racismo e a opressão que os pretos vivem, está junto do “opressor”?

temas de redação em dear white people
Off: vocês shippam?

O Censo Demográfico de 2010 – “Nupcialidade, fecundidade e migração”, divulgado pelo IBGE, mostrou que, no Brasil, pessoas brancas preferem casar com brancas, negras com negras, asiáticas com asiáticas, pardas com pardas e indígenas também preferem se unir com indígenas.  De acordo com ele, 73,7% dos homens em uma união estável se relacionam com mulheres brancas. 21,1% deles são casados com pardas, 4,6% com negras e apenas 0,5% com asiáticas (o percentual de brancos casados com indígenas é muito baixo: só 0,1%).

Em um dos momentos da série, Gabe termina com Sam por não estar disposto a lidar com a confusão que pode vir com o namoro entre eles. Será que a mesma coisa aconteceu com essas estatísticas?

Então, quer dizer que eu posso usar uma série na minha redação de vestibular?

Não só pode, como deve! Aqui no Salto, a gente acredita que não só o melhor repertório é o aquele que você gosta de verdade. Então, se você achou que precisava ficar decorando números oficiais e dados do IBGE e frases complicadas, a boa notícia é que não é necessário morrer de tédio para ganhar repertório de qualidade para a redação. 

O que o texto dissertativo-argumentativo quer é ver sua habilidade de articular bem informações válidas em uma argumentação bem elaborada. Portanto, se você ama animações da Disney, pode ter certeza que um Rei Leão bem colocado vai valer muito mais que um Foucault sem contexto. Agora, se você ama Foucault e odeie animações infantis, vai com tudo na filosofia cabeçuda, que vai ser um sucesso.

O que importa mesmo é que você saiba relacionar bem o seu repertório com a ideia que você quer exemplificar ou introduzir – e isso fica bem mais fácil quando você tem mais intimidade com a obra. Então, se você gosta de séries sci-fi em futuros distópicos, talvez vá gostar de saber como usar Westworld em três temas de redação. E se você gosta mesmo é de uma dramédia adolescente, quem sabe o post sobre temas de redação em Atypical não é o que você precisa?

E em todo caso, seguindo a gente no Instagram você vai ver sempre em primeiríssima mão todas as nossas análises de série com foco no vestibular. Confia em mim, você vai gostar!


Clara Del Amore
Redatora, maratonista de
séries e mascote do Salto