Por Clara Del Amore

One Day at a Time é a prova máxima de que pra ganhar repertório para a redação ninguém precisa sofrer. A série é hilária e entre uma risada e outra, você observa situações dignas de um texto dissertativo-argumentativo brilhante. Além disso, os assuntos delicados são abordados na narrativa com muita responsabilidade (já fazendo aquele elogio de fã).

Um pequeno resumo para quem nunca assistiu: a série é uma sitcom que fala da vida de uma família cubano-americana e de tudo que eles enfrentam, cada um em sua própria jornada. O plot original é de uma série dos anos 1970, mas a Netflix criou uma nova versão que, até o momento em que eu escrevi este artigo, já tinha três temporadas e seguia no catálogo

Então, vamos falar do que interessa?

🚨 Aviso importantíssimo: o que mais tem aqui é spoiler. Desculpa, não tem outro jeito! 🚨

Tema nº 1: A relação entre o colorismo e racismo

Os Alvarez são uma família de origem cubana que mora nos Estados Unidos. Ou seja, é fácil imaginar que eles passam por situações de racismo e xenofobia. Latinos na terra do Tio Sam sofrem não só pelos estereótipos e preconceitos, mas também pela extrema generalização. Isso porque é muito comum que qualquer pessoa com traços latinos seja automaticamente considerada mexicana. Negar que a população latina é diversa é uma forma de não reconhecer a individualidade dessas pessoas, que têm histórias, costumes e vivências diferentes. 

Mas a questão do colorismo vai mais a fundo. O termo foi popularizado pela escritora Alice Walker, muito conhecida por seu livro “A cor púrpura”. Ela percebeu que sua filha, por ter pele mais clara e cabelos mais lisos, era mais aceita pela população negra. Ela define a palavra como “tratamento prejudicial ou preferencial de pessoas, baseado unicamente na cor da pele entre pessoas da mesma raça”. Ou seja, pequenas vantagens podem ser atribuídas às pessoas negras de pele mais clara, enquanto as de pele mais escura são mais excluídas. Porém, isso não significa que elas não sofram racismo, já que há um abismo entre a educação, trabalho e renda que elas recebem, comparados com pessoas brancas.

O colorismo também pode influenciar na forma que uma pessoa imigrante é tratada.

A Elena e o Alex

Na série, todos os integrantes da família passam, por algum grau, por discriminação. Começando pela Lydia, a avó, que imigrou de Cuba para os Estados Unidos como refugiada , que se sentiu indesejada no país por não falar inglês e por ter sofrido racismo. Em um dos episódios, Alex, o filho mais novo de Penelope, escutou a famosa frase “volte para o México” de pessoas que notaram seus traços latinos e o fato de que ele estava falando espanhol. Em contraposição, Elena, apesar de ter sangue cubano, tem a pele branca e não passa pelos mesmos perrengues que o resto da família, sendo relativamente privilegiada nesse quesito.

Enquanto isso, no Brasil…

Pretos e pardos são 54% da população, porém a questão da classificação por cor sempre foi bastante complicada por aqui. Em um artigo da Bianca Santana para a Revista Cult, encontrei um dado muito curioso:

Em 1976, o IBGE fez a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio em que deixou a categoria cor como uma pergunta aberta. Cento e trinta e seis cores diferentes foram registradas, que iam da acastanhada à vermelha.

Se há tantas variações de fisionomia possíveis, não é exagero pensar que o colorismo é uma grande questão no Brasil.

Tema de redação nº 2: O aumento da depressão e seus impactos na sociedade

No passado, Penelope se juntou ao exército e foi duas vezes ao Iraque. Dá pra ver que ela sofre com depressão e ataques de pânico. Mas, por questões culturais, ela acredita que recorrer a remédios é um sinal de fraqueza, recusando-se a tomar as medicações receitadas por seu chefe, Dr. Berkowitz. 

Lydia, sua mãe, crê que a melhor forma de lidar com ansiedade e outros transtornos é por meio de orações. Ela considera os antidepressivos de Penelope “a grande vergonha da família”, apesar de que não faz isso por ser uma pessoa má. A bagagem cultural e as diferentes gerações mudam a percepção sobre a saúde mental e como lidar com ela.

“E qual é o ponto de viver se eu não consigo sentir nada?” (Porque sim, depressão também é apatia!)

As coisas só mudam mesmo quando Penelope passa a tomar seus medicamentos e ir para a terapia, confrontando sua mãe e superando seu próprio preconceito. Quando menos esperamos, outra recaída: ela decide que está curada e não precisa mais dos medicamentos, interrompendo o tratamento sem consultar um médico. Se você já fez uso de medicamentos assim ou conhece alguém que faz, talvez possa imaginar que essa é a receita do fracasso. Como Penelope, que depois dos episódios de mania não consegue mais sair da cama, nem para comer.

Enquanto isso, no Brasil…

Dados divulgados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2017 informam que cerca de 5,8% da população brasileira sofre com depressão e 9,3% convive com a ansiedade. E um dos principais riscos durante o tratamento é a interrupção do uso de medicação psiquiátrica antes de tempo, o que pode trazer os sintomas de volta.Para falar de assuntos como esse, o governo instituiu em 2015 o Setembro Amarelo, uma campanha de prevenção ao suicídio. Ações como essa colaboram para quebrar o estigma em cima dessas condições que, em último caso, podem levar à morte. Isso porque, assim como na série, no Brasil doenças como depressão e ansiedade ainda seguem rodeadas de estigmas. Um exemplo é esta reportagem sobre depressão nas periferias e esta campanha do governo de São Paulo, estimulando a empatia com pessoas que sofrem de depressão.

Tema de redação nº 3: A importância da família no tratamento do alcoolismo

Victor, ex-marido de Penelope, serviu no Exército junto com ela. A experiência o deixou com transtorno pós-traumático severo, o que o tornou dependente de álcool e de remédios. Mas não é só ele que convive com o drama do vício. Schneider, o senhorio do prédio onde vive a família Alvarez, tem sua história revelada em alguns episódios. Quando criança, ele não recebia atenção dos pais, o que acabou facilitando seu contato com drogas, álcool e jogos de azar.

A diferença na forma com que os dois lidam com o abuso de substâncias é nítida. Victor acha que consegue lidar com a situação sozinho, não procura ajuda profissional e rejeita o apoio da família. Schneider, por outro lado, já foi a centros de reabilitação seis vezes em busca de ajuda. Mesmo com recaídas, ele nunca desistiu de se recuperar.

Além disso, ele sempre valoriza o apoio dos Alvarez, citando a vez que Lydia o visitou em um desses centros e que Penelope o deixou levar Alex a jogos de baseball, já que não é comum que pais confiem em ex-dependentes químicos. Schneider acredita que a família é um dos motivos para que ele permaneça sóbrio.

Enquanto isso, no Brasil…

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 237 milhões de homens e 46 milhões de mulheres sofram de alcoolismo no mundo inteiro. Dessas pessoas, mais de 3 milhões morreram por este motivo em 2016.

Por aqui, o Sistema Único de Saúde oferece tratamento gratuito para pessoas que têm problemas com o abuso de álcool e outras drogas por meio dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). O apoio da família nesses casos é realmente fundamental, tanto que existe, também, uma associação para familiares e amígos de alcoólicos – a Al-Anon.

E como eu posso usar uma sitcom na minha redação do vestibular?

Repertório bom é repertório que o vestibulando ama. É assim que nós pensamos aqui no Salto. Para provar para o avaliador que você merece a vaga na universidade, não existe necessidade alguma de saber dados complexos de cabeça, muito menos frases de filósofos cabeçudos (a não ser que você goste, aí pode).

O que o texto dissertativo-argumentativo quer é ver sua habilidade de articular bem informações válidas em uma argumentação bem elaborada. Portanto, se você ama mesmo é se divertir com séries de comédia, pode ter certeza que um trecho de One Day at a Time bem colocado vai valer muito mais que um Foucault sem contexto. O que importa mesmo é que você saiba relacionar o seu repertório com a ideia que quer exemplificar ou introduzir – e isso fica bem mais fácil quando você tem mais intimidade com a obra.

Aliás, aqui no blog nós somos bem ecléticos. Tem para todo gosto. Se você gosta de séries de sci-fi em futuros distópicos, talvez vá gostar de saber como usar Westworld em três temas de redação. Agora, se você é fã de games, pode gostar de ler sobre como usar o jogo The Last os Us 2 na sua redação. Ah, você gosta é de séries de drama? Então, dê uma olhada no artigo “Uma série, três temas de redação: Dear White People”.

E em todo caso, seguindo a gente no Instagram você vai ver sempre em primeiríssima mão todas as nossas análises de série com foco no vestibular. Nos vemos lá!

Clara Del Amore
Redatora, maratonista de
séries e mascote do Salto